sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ainda posso sentir o gosto do medo...

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Ainda posso sentir o gosto do medo. Um frio estranho que sai do interior de meus ossos. Toda a espinha está gélida como o fio de uma lâmina. Nessas horas a respiração torna-se rápida e de tal forma densa que pequenas nuvens saem de minha boca e nariz.
Sinto os olhos de Gattar...
Estão grudados à minha nuca, acompanham meus passos... Não consigo virar-me... O medo de deparar-me àqueles olhos é aterrador. Mas eles podem mudar sua estratégia, cortar caminho por outra rua, acelerar os passos e quando eu dobrar a esquina darei de cara com eles. Não! Não! Preciso seguir em frente. Não olharei nos olhos de ninguém... Não suportaria rever aqueles olhos... não posso... não posso... preciso seguir... preciso encontrar os outros... acelerar os meus passos, mas sem correr, não posso despertar atenção, preciso passar despercebida, alcançar os portões de Dundra. Ah... atravessar os portões de Dundra...!

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Insônia – 5º dia


Era difícil ser rosa, azul ou amarelo. O vermelho às vezes lhe servia, assim bourbon quase vinho, mas não demorava a derramar-se num negror absoluto, que não passava de um piscar se olhos. Vários piscares, alguns até um pouco demorados, as pálpebras desciam lentas, mas os olhos abriam-se outra vez.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Tereza

(Gravura de Sheila Paiva da Paz)




O raio bateu no seu rosto. Tereza na cama estirada. Concha outrora aberta, agora fechara. A flor murcha e sem sabor ao raiar do dia. Os cabelos já não brilham seu negror de estrelas. Tereza na cama, braço levantado, o outro afaga o seio, mas nessa hora de clarear ele aquieta-se e bate lá por dentro num compasso de quase nada – quase morto. Bons dias não trará o sol a Tereza. Ela é de lua, aberta na cama, rosa a orvalhar-se na voluptuosidade da boca da noite.

sábado, 31 de outubro de 2009

Insônia – 16ª dia




Agora ali, nua na cama, Pedro a vestir-se. Por horas entregaram-se ao prazer. Nunca um ao outro. No final ele sempre olhava o relógio no pulso “Preciso levantar cedo amanhã”, mas já era amanhã! E Pedro dormia no amanhã, pensando ser ontem, mas despertaria no mesmo dia. Ali nua na cama, Camila via Pedro dormir, enrolado em seu lençol até a cintura, a cabeça aninhada em seu travesseiro, alheio a seus olhos. O verdadeiro prazer seria dormir. Lá fora o sol nascendo, esquentando. Dentro do quarto, cortinas fechadas, o ar-condicionado ligado, Pedro dormindo, ela nua na cama. O relógio de pulso dispara seu alarme, Pedro acorda, senta-se na beira da cama, veste-se. Camila absorta em solidão, a cama desfeita a esvaziar-se. Mais um dia, o décimo sexto.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Insônia – 18º dia



O que meu corpo quer?
Ou não quer?
Que estranho tempo me faz ficar desperta?
Meu rosto é só olheiras.
Já não sei exatamente meu nome, Camila, parece, mas não tenho certeza.
O coelho branco sempre passa a correr.
Pra que tanta pressa?
A noite será outra vez longa
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sábado, 12 de setembro de 2009

No Campo das Flores Mortas (Fragmentos)

(O GRITO - Edward Munch)

Naquela manhã tudo era diferente do normal. Fui sacudida por uma rajada de som e luz que vinham de todos os lugares, sem que eu pudesse distinguir se dormia ou sonhava. Senti minha pele parecendo se esfacelar como algo velho e seco, talvez uma folha ressecada após muitos anos reclusa dentro de um livro. E ela surgiu contra a luz, inundada de sombras... muda, ou talvez calada pelos sons que ecoavam. Agora podia distingui-los como gritos, gritos de dor. O meu grito! Todos os gritos de dor que um dia brami. As mãos dela então estenderam-se a mim e dentro delas uma máscara diferente de todas que já vi. Sem qualquer expressão dos lábios, dois buracos para os olhos, os meus olhos... E ela sumiu, e meus gritos cessaram e a luz desfez-se em sombras eternas debaixo desta máscara, onde apenas trago a dor.

No Campo da Flores Mortas (Fragmentos)

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Quatro horas da tarde... Eu me lembro... foi este o exato momento em que o céu escureceu. O relógio da sala anunciou: dezesseis badaladas. Raios cortavam o céu, o céu mais escuro que já vi. As quatro da tarde... Onde estavam as crianças? Não estavam no quarto... Quatro e treze. Brincavam no quintal. Sim, eu as havia mandado brincar no quintal! Quatro e quinze. Descia as escadas quando a chuva começou, forte... fétida. Quatro e dezessete. Gritos, muitos gritos. Eu já estava na cozinha e vi nosso cão, debatendo-se nos móveis, ganindo de dor. Quatro e vinte. As crianças! As crian... Abri a porta e as vi caídas no quintal, estremecendo convulsivamente na grama molhada. Quatro e vinte e três. Corri em direção delas, mas a chuva, a chuva cinza e fedorenta impediu que as alcançasse. Quatro e vinte quatro: caí. Arrastei-me até a cobertura mais próxima e fui sentindo todos os meus músculos, nervos, tendões partirem-se. Era ela, sempre nas trevas!, para quem sempre fui uma simples marionete... era ela que agora cortava as linhas que me sustentavam com os quais movimentava-me. Quatro e quarenta e cinco e ela se foi deixando-me presa apenas por um fio, o mais frágil, o fio que me liga diretamente à morte.